JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS: UMA MANEIRA DE SER MODERNO

JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS: UMA MANEIRA DE SER MODERNO

Exposição antológica mostra a obra de um artista que catalisa a vanguarda nos anos 1910 e atravessa todo o século XX

Por Jo Lima

A Fundação Gulbenkian apresenta uma retrospectiva do artista plástico, escritor, actor, performer, cenógrafo e bailarino, José Almada Negreiros. Uma visita obrigatória que sugerimos a fazer com tranquilidade e munido de óculos para leitura.

A exposição organiza-se em oito núcleos temáticos com vários fios condutores, de modo a revelar os vários rostos deste artista da “modernidade total”, que marcou profundamente a arte portuguesa do século XX. Para Almada, a modernidade deveria estar presente em todo o lado, nos edifícios públicos, nas ruas, no teatro, no cinema, na dança, no grafismo e nas ilustrações dos jornais, e entendia o artista como o agente principal deste movimento plural. Para os desatentos, a exposição inicia-se no hall de entrada principal da Fundação. O painel “Matemática” dá-nos as boas-vindas, a geometria aplicada na arte. Gaste um tempo a fazer contas…


As Banhistas, óleo sobre tela

Na galeria principal da exposição, logo do lado esquerdo, uma pintura grande e almadense do seu amigo Fernando Pessoa. Continue por ai porque neste núcleo estão alguns dos muitos trabalhos que o artista fez em colaboração com arquitectos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores.

Ao descer as escadas para o piso inferior, ao lado esquerdo, dois murais circenses coloridos convida-nos à segunda parte da exposição, onde é destacada a presença de Almada no cinema e a sua acção na narrativa gráfica. Delicie-se ao ideal de Almada, perca tempo a ler as historias/fábulas/contos curtos (como preferir) que enchem uma sala. Engraçadas e humanas.


Sem título, 1940, guache sobre papel

A fatia de bolo de chocolate é o corredor com 64 desenhos vistos pro meio da lanterna mágica (O Naufrágio da Ínsua, 1934), que relata as peripécias de um naufrágio sem vítimas em Moledo. Luz e emoção nesta história iluminada.

A exposição – obrigatória para qualquer ser – é complementada com uma série de iniciativas que conclui a versatilidade da obra de Almada: a peça de teatro Antes de Começar pelo Teatro da Esquina, a exibição da obra multimédia Almada, Um Nome de Guerra, realizado por Ernesto de Sousa, visitas às Gares Marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, mesas-redondas com vários investigadores de diferentes áreas e ainda um ciclo de cinema na Cinemateca Portuguesa.

No âmbito da temporada Gulbenkian Música, será também recriado o espetáculo La Tragedia de Doña Ajada, estreado em Madrid, em 1929, com a projeção da lanterna mágica desenhada por Almada, composta por seis quadros criados para acompanhar a música de Salvador Bacarisse e o libreto do poeta Manuel Abril. A partitura orquestral completa perdeu-se, sendo tocada em versão de suite pela Orquestra Gulbenkian, dirigida por Nuno Coelho Silva, vencedor este ano, do primeiro Prémio Jovens Músicos em Direção de Orquestra.

Vá com tempo e incorpore o moderno, como Almada propõe-nos:

“Isto de ser moderno é como ser elegante: não é uma maneira de vestir mas sim uma maneira de ser. Ser moderno não é fazer a caligrafia moderna, é ser o legítimo descobridor da novidade.” – José de Almada Negreiros, conferência O Desenho, Madrid, 1927.

SERVIÇO

Exposição: “José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno”
Quando: Até 5 junho 2017 (10h00 até 18h00)
Local: Fundação Calouste Gulbenkian (Av. de Berna, 45A, Lisboa)
Curadoria: Mariana Pinto dos Santos com Ana Vasconcelos
Bilhetes: 5€

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